Rondônia: um mundo de cores e tolerância social


Texto - RONDÔNIA um mundo de cores- 11-04-16.doc

A miscigenação é uma das características mais marcantes da população brasileira, é inegável que somos o resultado de “uma mistura de todos”. O Brasil é o país americano em que esta miscigenação está mais enraizado e aparente. De modo geral, podemos dizer que a composição étnica brasileira é basicamente oriunda de três grandes e principais grupos étnicos: os indígenas, os africanos e os europeus. Os índios formam os agrupamentos descendentes daqueles que aqui habitavam antes do período do “descobrimento” efetuado pelos portugueses. Com a invasão dos europeus, boa parte dos grupos indígenas foi dizimada, de modo que várias de suas etnias foram erradicadas.

Já os negros africanos compõem o grupo dos povos que foram trazidos à força da África e que aqui foram escravizados, sustentando a economia do país durante séculos por meio de seu trabalho. Boa parte de nossa cultura, práticas sociais, religiões, tradições e costumes está associada a valores oriundos desses povos.

A presença negra no território do atual estado de Rondônia denota do Período Colonial onde possivelmente se estabeleceram na região fugindo da escravidão, passando a se organizar em comunidades autônomas denominadas quilombos.

O Quilombo do Piolho ou do Quariterê localizava-se na região do vale do Guaporé, na segunda metade do século XVIII. O quilombo reuniu negros nascidos na África e no Brasil, índios, brancos e cafuzos (mestiços nascidos da união de negros e índios). Localizava-se as margens do rio Piolho (ou Quariterê).
Acredita-se que o primeiro líder do Quilombo do Piolho tenha sido José Piolho. Com a sua morte, Teresa de Benguela, que era sua mulher, assumiu a liderança do quilombo.Em 1770, logo que a existência do quilombo ficou conhecida pelas autoridades coloniais, uma bandeira foi organizada para destruí-lo. A bandeira contava com trinta homens e vinha sob o comando de João Leme de Prado. A bandeira percorreu um mês de Vila Bela da Santíssima Trindade até o quilombo. A bandeira atacou o quilombo de surpresa e prendeu a maioria de seus moradores; outra parte foi morta durante o combate, e outros se embrenharam na floresta.

No quilombo Tereza criou um sistema político similar ao Parlamentarismo, onde ela como rainha, se submetida à decisão de um conselho de representantes. Havia um regular exército de resistência que possuíam armas de fogo, obtidas ou no comercio de produtos excedentes do quilombo, ou mesmo obtidas, de oponentes vencidos que tentaram invadir a comunidade. Não era admitida a deserção, sendo punida com pena de morte, visando inclusive a segurança dos quilombolas, que poderia ter sua posição e situação delata por esta pessoa.

A comunidade quilombola que se estruturou no Vale do Guaporé, embora com características centralizadoras, representou mais que um exemplo de resistência ao sistema escravista da época, foi um modelo de convivência e TOLERÂNCIA racial invejável. Tolerância cada vez mais carente em nossa sociedade.

É incrível como em plena “Era das Comunicações” onde o mundo tornou-se cada vez menor, onde as fronteiras sociais e culturais são paulatinamente dissolvidas, ainda nos deparamos com atitudes de intolerância racial dignas da “Casa Grande e Senzala”. Chega a ser uma afronta à dignidade humana e aos princípios de racionalidade tão defendidos por grandes movimentos ao longo da História.

A intolerância é uma atitude contrária à existência de valores universais e inviabiliza a cooperação entre as pessoas de uma mesma sociedade.Os limites da TOLERÂNCIA residem em primeiro lugar na não aceitação da intolerância, nem das relações de exploração entre classes e grupos sociais desfavorecidos, sem limites a TOLERÂNCIA seria a própria negação. O contrário da igualdade não é diferença, mas sim a desigualdade que é socialmente construída, somente a aceitação da diferença pelo princípio da TOLERÂNCIA não é o suficiente para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna e é claro verdadeiramente democrática.

A solidariedade é a virtude necessária para o enfrentamento das diferenças brutais e injustas, da desigualdade. Os preconceitos, a intolerância, dentre outras atrocidades podem ser combatidos não somente pela informação, mas também através da construção e do estabelecimento de valores como a TOLERÂNCIA, a ética, a honestidade, o respeito e o exercício real da cidadania.

Assim, nós brasileiros, segundo o mestre Darcy Ribeiro, “somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo”.