Ribeirinhos usam boias de plástico e macaco hidráulico para escapar de cheias recordes


Sinais da natureza falham, e moradores desenvolvem novas técnicas para salvar suas casas

Seu Arnaldo sabia se a cheia seria grande pela altura das ovas vermelhas do uruá, um caramujo comum em Marimba, comunidade ribeirinha no Amazonas. “A gente colocava uma estaca de madeira no chão e, onde o uruá desovava, a gente sabia que a água ia chegar até ali”, conta Arnaldo Rodrigues Cruz, 73, ou seu Arnaldo, como é conhecido por ali.

“Tudo isso era sinal da natureza”, diz o agricultor. O tempo de amadurecimento das frutas, a lagarta que saía na água, o “folharal” que caía no igapó (matas alagadas típicas da Amazônia). Mas faz tempo que as previsões de Arnaldo falham.

“Não vigora mais. ‘De primeira’ a gente sabia, mas hoje dá muito errado. De 2009 para cá é cruel, não dá para dizer mais nada. Se nem os cientistas acertam, eu vou acertar?”, lamenta ele, nascido e criado em Marimba, no município de Careiro da Várzea (AM), a cerca de uma hora de barco de Manaus.

A impressão dos moradores da comunidade, principalmente os mais antigos, é que há algo de errado com a natureza. As cheias têm sido cada vez maiores e mais longas. Os relatos batem com a versão de especialistas.

“No Amazonas, os eventos climáticos extremos têm aumentado nos últimos 20 anos e ficaram mais graves recentemente. Estamos batendo recordes de inundações e secas. Com as mudanças climáticas, a probabilidade de esses eventos extremos ocorrerem é muito maior”, alerta o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside, ganhador do Prêmio Nobel da Paz junto a outros cientistas do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC). Ele cita ainda os fenômenos El Niño e La Niña, o aquecimento das águas do Atlântico e movimentos de zonas de convergência como motivos para as alterações.

As estiagens e as cheias são fenômenos naturais e anuais no Amazonas, mas, quando esse regime foge dos padrões, as comunidades ribeirinhas –que vivem da agricultura, pecuária e pesca– são as mais afetadas.

“A maioria da população rural habita as margens de rios e áreas naturalmente inundáveis. Além disso, dependem do transporte fluvial. Uma pouca navegabilidade afeta todo o sistema de abastecimento do estado”, diz o professor de ciências ambientais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Henrique Pereira.

Com pouco ou nenhum amparo das autoridades públicas, populações ribeirinhas encontram soluções simples e, ao mesmo tempo engenhosas, para lidar com essas novas circunstâncias, principalmente com as enchentes.

Segundo pesquisa do Instituto Igarapé, ao menos 6,4 milhões de brasileiros ficaram desabrigados ou desalojados por desastres naturais desde 2000, o equivalente a um a cada dois minutos. Dentre os estados, Amazonas e Santa Catarina são os mais afetados. Apesar de atingir milhares de brasileiros, políticas de prevenção de desastres definham no país.

Folha visitou comunidades no Amazonas que desenvolveram uma série de estratégias para enfrentar as cheias recordes: algumas utilizam macacos hidráulicos para suspender as moradias, outras usam um sistema de roldanas para arrastar as construções e, por fim, há o caso do povoado ribeirinho de Cristo Rei, no município de Careiro da Várzea, onde um pescador criou o seu próprio modelo de casa –que foi, aos poucos, replicado pelos vizinhos.

O pescador Sidnei de Oliveira, 38, em sua casa flutuante em Cristo Rei

O pescador Sidnei de Oliveira, 38, em sua casa flutuante em Cristo Rei – Eduardo Knapp/Folhapress

Sidnei de Oliveira, 38, só estudou até a quinta série, mas, nas suas palavras, “é bom das ideias”. Após ter a casa de palafita alagada duas vezes, decidiu “sair do sufoco”. “Eu mesmo que ‘ideei’ e fiz o protótipo”, diz.

Pegou um caderno, caneta preta e, com traços firmes, fez uma planta baixa e um projeto, em três dimensões, da sua futura casa. Quatro fileiras, com 48 tonéis de plástico, servem como boias para a casa. “Não sei onde aprendi isso. Cada um tem um dom”, explica ele, enquanto mostra o desenho original, guardado como uma relíquia.

A autoria é corroborada pelos moradores da região –que nunca tinham visto uma casa assim– e pelo carpinteiro da comunidade. “A ideia quem teve foi um pescador muito inteligente. Ele desenhou em um caderno, mostrou para mim, e eu fiz”, conta Evandro Rocha de Oliveira, 55.

A obra custou R$ 4.800 –como pescador, Sidnei ganha cerca de R$ 1.200 por mês. Antes da nova casa, ele foi desalojado por enchentes em 2009 e 2012 e acolhido por parentes. “Em 2009, a água ficou na altura da janela”, conta. Para não perder seus objetos, usou duas técnicas comuns no Amazonas: amarrou parte dos móveis no telhado e, para o restante, fez uma maromba –estrado de madeira, apoiado no assoalho da casa, que funciona como um piso elevado. “Agora não preciso de nada disso, essa casa já enfrentou cinco enchentes. Vivo bacana demais, não me preocupo com ‘alagação'”, afirma.

Evandro Rocha de Oliveira, 55, caminha sobre tambores plásticos que usará para construir casa flutuante

Evandro Rocha de Oliveira, 55, caminha sobre tambores plásticos que usará para construir casa flutuante – Eduardo Knapp/Folhapress

Interior da casa de Sidnei, com paredes de PVC, material mais leve que madeira

Interior da casa de Sidnei, com paredes de PVC, material mais leve que madeira – Eduardo Knapp/Folhapress

Antes, havia apenas dois tipos de moradia tradicionais em Cristo Rei: as de palafita, que são fixas, e as flutuantes, que costumam usar toras de madeira de assacuzeiro [árvore da Amazônia] como boias e ficam dentro dos rios. A casa de Sidnei foi inovadora na comunidade por ser flexível e combinar os dois modelos: flutua na cheia e assenta na seca. Os ribeirinhos ainda acrescentaram palafitas, uma melhoria à invenção do pescador. Assim, na estiagem, as moradias são apoiadas nos tocos de madeira (e não ficam rentes ao chão), evitando a entrada de animais.

“A casa fica no meio da comunidade, como todas as outras, mas não alaga. Na cheia, é só amarrar na palafita para ela não ir embora”, explica Evandro. O carpinteiro já fez cinco moradias do tipo em Cristo Rei, que fica a cerca de duas horas de barco de Manaus. Evandro elenca as vantagens do modelo de Sidnei, em comparação às casas flutuantes de assacuzeiro.

“O tambor de plástico é quatro vezes mais barato e não agride a natureza”, diz. Além de não usar madeira, o barril de plástico é reaproveitado de indústrias de Manaus. Outro ponto negativo da casa de assacuzeiro, segundo os ribeirinhos, é que ela não pode ficar em área seca ou muito perto da margem, porque as toras podem ficar tortas e quebrar. “Ela tem que flutuar sempre e não pode encalhar. Precisa ficar movendo a casa com barco o tempo todo”, afirma Evandro. Nos rios da região, é comum a água avançar e retroceder quilômetros, tornando essa movimentação ainda mais difícil.

“E quando a correnteza está forte, a casa de assacuzeiro pode ser arrastada, tem que amarrar com cabo de aço. Você nunca está sossegado”, diz a merendeira Maria de Jesus Ferreira de Sousa, 43, que considera fazer uma casa como a de Sidnei. Para ela, esse modelo misto permite ficar mais próximo da comunidade e, portanto, mais protegido de roubos, bem como manter plantações perto no período de seca.

Maria de Jesus Ferreira de Sousa, 43, no terraco de sua casa erguida a quatro metros do solo em Cristo Rei

Maria de Jesus Ferreira de Sousa, 43, no terraco de sua casa erguida a

quatro metros do solo em Cristo Rei – Eduardo Knapp/Folhapress

A casa de Maria é uma das mais altas da comunidade, com palafitas de cerca de quatro metros de altura. Segundo Evandro, esse tipo de construção é frágil. “Fica muito instável. E tem que lutar pela preservação da natureza, não dá para fazer casa cada vez mais alta, e gastar tanta madeira”, afirma.

Até chegar nas alturas, Maria passou por várias enchentes. Em 2012, a água chegou ao teto da sua casa, e ela precisou viver dois meses na escola onde trabalha –o local foi transformado em abrigo. “Chega a dar uma tristeza quando eu lembro, perdi muita coisa. Fizemos maromba, mas subiu tanto que tivemos que sair”, diz.

Depois da experiência, ela se mudou para a casa atual, que tinha três metros. Mandou suspender mais um e, mesmo assim, em 2015, a casa foi atingida pela enchente. Dessa vez, a maromba aguentou, e a família ficou em casa, na parte suspensa. Os peixes, dentro d’água, circulavam pelos cômodos. O pé direito foi construído com folga, explica Maria, para que eles pudessem ficar em pé sobre a maromba durante as cheias. Em casas mais simples, amazonenses passam meses agachados ou de joelhos.

A palafita alta, no entanto, assusta Maria. “Quando tem temporal assim, balança muito, fico com medo”, diz ela, a voz abafada pelo barulho da chuva forte no telhado de zinco. Maria se levanta e, ao cruzar a sala, a casa inteira se move no sentido contrário, como se estivesse solta no espaço. Os pratos, empilhados nas prateleiras, tilintam em tom de alerta.

Assim como em outras comunidades, a percepção é de que as enchentes em Cristo Rei pioraram. “Eu nasci e me criei aqui. Antigamente não era assim. As casas eram feitas no nível das cheias e não alagava. Agora cada ano é maior.”

Em casa na comunidade Marimba, erguida para evitar cheias do rio Amazonas, a ponte que dá acesso à casa tem uma porta sem paredes

MACACO HIDRÁULICO

Em Marimba, povoado do seu Arnaldo, há dezenas de macacos hidráulicos, mas nenhum carro à vista. A comunidade ribeirinha, onde os barcos são o principal meio de transporte, usa os instrumentos mecânicos para suspender casas inteiras.

“Qualquer menino faz”, diz o pescador e vereador Almir Pinheiro, 52. “Mas tem que chamar vários, porque precisa de uns 40 para subir uma casa. E tem que ir levantando por igual, todos juntos, para não quebrar”, conta ele, que tem 82 macacos hidráulicos, guardados no seu quintal, e se gaba de ter suspendido mais da metade do povoado, de cerca de 180 casas de palafita. Almir ganha R$ 4.500 como vereador (pelo PROS) e diz não cobrar pelo serviço. “Aqui todo mundo é parente e se ajuda”, justifica. O processo, que dura cerca de um dia, funciona assim: Almir coloca as dezenas de macacos entre a palafita e a casa, sobe um metro e, em seguida, substitui os tocos por outros mais altos. Depois, retira os macacos, e a construção fica apoiada nas toras, um metro mais altas.

Com a técnica, Almir levantou a própria casa. Ergueu também a escola da comunidade, que tem banheiro de alvenaria e várias salas de aula. “Suspendemos com os alunos dentro”, diz, rindo.

A iniciativa permitiu regularizar o calendário da escola municipal Julieta Falcão de Oliveira, que ficava fechada pelo menos dois meses por ano nas cheias. “A gente parava as aulas em maio, suspendia todo o material, livros, cadeira, armário, na maromba. Depois de dois meses limpava tudinho e recomeçava”, conta a diretora, Luciana de Mesquita Medeiros, 38.

Para recuperar os meses perdidos, os professores organizavam aulas aos sábados. “Mas muita criança faltava”, diz ela. Em 2014, o colégio foi erguido um metro –após alagar por cinco anos consecutivos– e o calendário escolar voltou ao normal.

Na região, todos os moradores perderam casas nas enchentes e passaram meses em abrigos ou em barcos. “De 2009 para cá, a minha casa foi para o fundo todo ano. A gente não consegue ter nada”, diz Luciana. Já a de Almir, o dono dos macacos hidráulicos, desprendeu das palafitas e afundou com a esposa dentro, em 2012.

“Foi um banzeiro que arriou a casa”, explica. As ondas, causadas por embarcações, batem na porta de Almir e Lucileide na época das cheias. “Foi 11h da manhã, ouvi vários estalos, um barulho bem alto. A casa começou a subir e descer. Uma estante tombou, e entrou água até a minha cintura”, conta Lucileide de Oliveira Pinheiro, 51. Ela foi até a varanda e pediu socorro ao vizinho, que a resgatou de canoa.

Almir Pinheiro, 52, pescador e vereador de Careiro da Várzea, em sua casa, elevada com macaco hidráulico

Almir Pinheiro, 52, pescador e vereador de Careiro da Várzea, em sua casa, elevada com macaco hidráulico – Eduardo Knapp/Folhapress

Lucileide de Oliveira Pinheiro, 51, mulher de Almir; casal morou por dois meses em um barco

Lucileide de Oliveira Pinheiro, 51, mulher de Almir; casal morou por dois meses em um barco –Eduardo Knapp/Folhapress

“Aqui a correnteza do rio Amazonas é muito forte, se a pessoa cai na água, não consegue se manter fora muito tempo. Já morreu muita criança assim nas cheias”, diz Almir. O casal se refugiou em um barco, durante dois meses, enquanto um cardume de sardinhas de rio ocupou a casa, parcialmente submersa. “Dava para pescar na minha sala!”, conta Almir, rindo.

Lucileide não acha graça. Ela se lembra de ver, de dentro do barco, “a casa subindo e descendo com o banzeiro”. “Aquilo acumulou na minha cabeça. Até hoje eu tomo remédio controlado para dormir. Já chorei muito, mas choro não dá jeito, né?”

Quando a cheia passou, Lucileide não teve ânimo de comprar móveis novos. A casa de madeira é espaçosa e colorida, mas com poucos objetos. “O sofá estragou, e eu troquei por cadeiras de plástico. Tenho medo de comprar e se acabar de novo”, lamenta.

Além das casas, as enchentes afetam também a agricultura e a pecuária, as principais atividades econômicas das comunidades, bem como a pesca. Em Marimba, a maioria dos moradores faz canteiros suspensos, apoiados em marombas, para manter alguma plantação durante as cheias atuais. Assim, conseguem cultivar poucas hortaliças e temperos, para subsistência.

A mãe de Lucileide, Raimunda, 77, aproveitou uma canoa velha como canteiro suspenso. “A enchente agora vem e cobre as árvores. Tinha bananal, graviola, goiabeira, o limoeiro bonito que eu tinha aqui, morreu tudo”, conta.

Almir diz que as cheias inviabilizaram vários cultivos, principalmente de frutas. Quem ainda tem gado, como ele, precisa enviar os bois, de barco, para outras terras. “Custa R$ 30 reais por mês por cabeça. Depois na seca a gente traz os bichos de volta”, diz o deputado, que tem 70 bois. Já os bezerros passam os meses de enchente na sua cozinha mesmo. “Eu cheguei a fazer maromba para o gado, mas agora a cheia é tão funda que não dá mais”, afirma.

Escola municipal Julieta Falcão de Oliveira, erguida com macacos hidráulicos em Marimba

Escola municipal Julieta Falcão de Oliveira, erguida com macacos hidráulicos em Marimba –Eduardo Knapp/Folhapress

MIGRAÇÃO

Apesar da capacidade de adaptação dos ribeirinhos, há quem opte por abandonar as suas terras. “Até 2009, não tinha migração, porque eram eventos esparsos, mas começamos a detectar saídas definitivas na região”, diz o professor de ciências ambientais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Henrique Pereira.

Sua colega, a professora municipal Ana Cristina Nascimento, fez a pesquisa de mestrado sobre a resiliência dos ribeirinhos diante de eventos climáticos extremos. Moradora de uma comunidade próxima de Marimba e Cristo Rei, Ana já teve a casa alagada e conhece bem essa realidade.

“A maioria das pessoas fica no local. Fazem casas mais altas, flutuantes, canteiros suspensos, levam animais para terra firme, tudo isso são estratégias adaptativas”, diz ela. A pesquisa, no entanto, identificou também que 15% dos moradores do distrito migraram desde 2010 pelas inundações.

No estudo do Instituto Igarapé, Careiro da Várzea teve 34.848 pessoas desabrigadas e desalojadas desde 2000, o equivalente a 119% da sua população total –há quem tenha sido afetado mais de uma vez no período. Com isso, o município é o décimo do país em números de deslocados por habitantes.

Segundo Nascimento, as administrações públicas prestam uma assistência apenas emergencial, com doações de cestas básicas e madeira, mas deveriam ajudar os ribeirinhos na prevenção. “O poder público poderia dar suporte para eles levarem o gado para terra firme ou financiar essas adaptações nas casas, porque nem todo mundo tem condições de pagar”, diz ela.

Questionada, a Defesa Civil do estado disse que essa responsabilidade é do município. “Segundo a legislação e o Sistema Nacional de Defesa Civil, a primeira resposta é sempre do município. O estado presta apoio em casos de emergência. Também fazemos capacitações de gestores e ajudamos na formação de brigadas nos municípios”, afirmou, por meio de nota. A Folha entrou em contato com a prefeitura de Careiro da Várzea e não teve resposta.

Para o doutor em hidrologia e professor da Ufam Naziano Filizola, a resiliência aos fenômenos naturais é passada de geração em geração entre os ribeirinhos. “O homem da Amazônia tem esse conhecimento, mas há um limite. Não sabemos até que ponto essas comunidades vão suportar”, afirma.

A filha do seu Arnaldo foi uma das que não aguentou e se mudou com a família, há dois anos. As previsões do agricultor falhavam, as plantações se perdiam, a vida ficou difícil demais. “É melhor para eles lá. Ela planta e vê o fim. Aqui é começando o tempo todo. Planto uma bananeira, tiro um cacho, a água vem e leva. Eu não vou, porque já estou acostumado aqui”, conta, com tristeza.

Seu Arnaldo agora mora sozinho, envolto em pensamentos nostálgicos sobre as ovas do uruá, as lagartas, o “folharal” no igapó. O amadurecimento das frutas, que ele antes observava como mensagens da natureza, ficou no passado. “Marimba tinha tudo: laranja, caju, goiaba, abacate. De lá para cá acabou-se”, diz, com profundo pesar. “O derradeiro pé de manga morreu no ano ‘trasado’.”

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