OS HOMENS PASSAM, AS INSTITUIÇÕES FICAM…COM OS SEUS LEGADOS

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Um domingo de alegria por voltar a contatar com meus amigos do FACE, e o tempo ainda não vai dar para responder as postagens.

Mas junto com a alegria, também às vezes acompanha a tristeza.

Neste final de semana perdi um dos bons amigos e exemplos que tive no início de minha juventude.

Phelippe Daou. Um homem simples, mas repleto de riquezas interiores, raras, e somente naqueles que se tornam grandes homens para a sociedade, com suas contribuições públicas ou particulares.

Convivi com Phelippe, na segunda metade da década de 60. Editor do “Jornal” e do “Diário da Tarde” ele sabia tratar seus “companheiros”, como nos chamava. Osiris Silva, Correa Neto, Ajuricaba Almeida, Ulisses Paes de Azevedo Filho, Irizaldo Godot, Arlindo Augusto dos Santos Porto, Oscar Carneiro, e tantos que a memória nos desperta mas o espaço é pequeno para tantos atos e fatos, num tempo de um jornalismo com teletipo e máquinas quentes. Porém a notícia tinha que sair no dia seguinte. Expedito chefiando a oficina; Garganta, no teletipo e Correa Lima, na fotografia, sabiam disso.

Em Manaus ainda não haviam escolas de jornalismo, como em quase todo o Brasil. Por indicações, eu me apresentei ao Secretário do Jornal, Ulisses Azevedo, fiz um teste em uma antiga máquina de escrever, o que foi também útil quando aprendi nesse usual instrumento, na escola “Royal”. Aprovado, integrei-me à equipe. A partir daí, na prática e nos raros livros da época, comecei a aprender jornalismo. Ser foca, ser repórter, ser furão (um comportamento identificado por aquele que descobria notícias) e ter compromisso com a verdade da informação. Foi a minha escola.

Do outro lado da Avenida Eduardo Ribeiro, em frente à sede do Jornal, num prédio próximo à Confeitaria Avenida, segundo andar, numa pequena sala, sobre uma mesa, uma máquina, e, por trás, um jornalista com ideias e pensamentos inovadores sobre a para a Amazônia. Jamais vi alguém bater com incomparável rapidez os teclados de uma máquina de escrever, com a mesma velocidade no raciocínio. O Phelippe já chegou? Eu perguntava a um colega de redação. Um detalhe, instintivamente, sempre tratei o Dr. Phelippe como Phelippe, simples assim. Ele nunca sinalizou que deveria trata-lo de outra forma. E no jornal era esse o comportamento com e de todos colegas, sem formalidade. Sempre atencioso, preocupado com seus colegas, e com as notícias. Havia uma respeitosa interação entre o editor e repórter – ainda um foca que persistia em ser o melhor.

Phelippe jamais deixou de participar dos encontros de confraternização das festas de Natal. No majestoso Hotel Amazonas, o melhor da época, a turma da notícia se reunia sempre no final de ano para um alegre almoço. Diretores e editores de todos os jornais se juntavam aos coletores da notícia. Estávamos todos juntos. União perfeita. E as vezes em outros lugares, como no SENAC, quando em promoção do sindicato dos jornalistas se podia ouvir uma interpretação de “Bossa na Praia”, cantada por Babby Rizzato. Phelippe gostava muito do seu pai, um dos decanos do jornalismo amazonense, Herculano Castro e Costa. Pena de ouro, Herculano escrevia suas colunas em papel, à mão. “Companheiro, faça um favor, dizia o editor, pegue a coluna de amanhã do Herculano. Ele jamais esquecia a coluna do Herculano.

Phelippe foi um exemplo em tudo. Arantes, você vai amanhã para Belém, fazer um curso de jornalismo rural, patrocinado pela ACAR. Arantes você acompanhará a Comitiva do Governador Danilo Areosa pelo interior, para cobrir as inaugurações do Governo. Arantes, você será o “correspondente de guerra” nas manobras militares em Roraima. E assim, Phelippe ia dando os principais assuntos para cada um e que se transformariam em pautas para a próxima missão. Osiris Silva acompanhava os movimentos pré-zona Franca de Manaus. Foram muitos e deram muitas reportagens a este excelente reporter.

A Zona Franca era uma prioridade para o Amazonas e para a Amazônia. Phelippe participava de todos eventos que envolviam empresários interessados em investir na Amazônia. Seus editoriais, que escrevia numa sala sem ar condicionado, mas refrescada por um “ventiladorzão”, atenuado ainda por confortáveis camisetas que usava, produziam rigorosas e produtivas defesas em prol da Zona Franca.

Enfim, a Zona Franca de Manaus criada, o trabalho desse saudoso jornalista intensificou-se na sua proteção, até os dias de hoje. Ele defendia como ninguém a Amazônia unida, a Amazônia explorada racionalmente, uma Amazônia para todos. Já em tempos anteriores ele também patrocinava, através de “O Jornal e do “Diário da Tarde” a cultura popular, criando, se a memória não me falha, o Festival Folclórico do Amazonas, que acontecia sempre nas épocas juninas, no espaço da praça General Osório, em frente ao antigo quartel do 27º BC, hoje Colégio Militar. Apresentações diversas de grupos que enriqueciam a cultura amazonense, dos “bois bumbas, tipo Corre Campo, Mina de Ouro, etc. às alegres quadrilhas juninas.

Quando vim para o Acre, trouxe uma carta de recomendação para Tufi Asmar, seu grande irmão de coração, como toda a família Asmar. Aqui, uma segunda fase da vida empresarial de Phelippe. Todas as vezes que ia a Manaus, visitava Phelippe e Milton Cordeiro. Eles já tinham a TV Amazonas. Phelippe, você poderia ir para o Acre! Para minha surpresa: – Companheiro, iremos sim. Estamos criando a rede Amazônica. Pode aguardar. Ocuparemos a Amazônia, se Deus quiser (Ele era muito católico e determinado). E assim, trouxe a TV para o Acre. Eu e Tufi Assmar, como se diria, batemos martelo nas portas. Fui o primeiro gerente comercial da TV Acre. Algumas vezes almoçamos juntos, na casa de Tufi, em suas viagens a Rio Branco. Phelippe não esquecia suas irmãs que moravam na Bolívia e sobrinhos que moravam e ainda moram no Acre, como o economista Alfredo Jares. Sempre discreto, aqui chegava e daqui partia. Poucos sabiam. Sua luta era para consolidar a TV ACRE. E conseguiu. Enfrentou dificuldades numa época em que não se via grandes e valorosas publicidades. O Governo não era detentor de grandes recursos para as comunicações. Ainda assim teve apoio de empresários da época que nele acreditaram, como Fernando Castro, da Empresa Santa Clara; Aruaque-Associação de Poupança e Empréstimo do Acre, cujo Presidente era Amilcar Queiroz e Superintendente, o administrador de empresas Josimar Coelho; Utilar, dos irmãos Calixto, de Porto Velho; Wilson Barbosa, um grande patrocinador das transmissões esportivas; e outros empresários que assinaram contratos antes mesmo da TV abrir suas transmissões. Diga-se, contratos de 12 meses.

A primeira empresa de Phelippe Daou, a Amazonas Publicidade, situava-se num edifício onde o fotógrafo Salgado possuía seu atelier (quem mora em Manaus daquele tempo, sabe). Uma sala simples, com aproximadamente vinte metros quadrados, cujas peças publicitárias eram elaboradas em São Paulo, coordenadas por Joaquim Margarido. As campanhas da Camtel (telefonia fixa), CEM (Companhia de Eletricidade de Manaus) foram algumas das primeiras, produzidas pela Amazonas Publicidade. O logotipo das suas empresas, formado por três espirais teriam sido com base nas suas primeiras organizações (Amazonas Publicidade, Amazonas Distribuidora de Revistas e TV Amazonas, mas coincidentemente, ou não, batia com os três íntegros, determinados, solidários e harmoniosos sócios, Milton Cordeiro, Joaquim Margarido e Phelippe. E partiram na mesma sequência e no mesmo ano para o oriente eterno. Joaquim, em Outubro; Milton Cordeiro, em Novembro e Phelippe em dezembro.

Aqui, apenas uma lembrança, mas o espaço é muito pouco para se falar do verdadeiro empresário, homem de visão extraordinária, com quem tive o prazer de conviver profissionalmente e como amigo (soube antecipar com equilíbrio, inclusive, a sua sucessão, herdada por seu filho Phelippe Daou Jr, que foi preparado para isso, pelo visto, com êxito) O Tempo e a distância separam amigos, mas as lembranças persistem, ainda que eles tenham viajado para outro plano.

Que a luz divina continue a iluminar esses amazônidas, onde estiverem. Descanse em Paz, Phelippe. Seus sócios já devem ter preparado a sua recepção.

Que o seu filho, que conheci como o Phelippinho, como a ele se referia na redação de “O Jornal”, seja iluminado pela mesma luz que iluminou seu pai.

Fica aqui registrado uma frase que Phelippe repetia, quando reclamávamos da arrogância de alguma autoridade que se negava dar entrevista a um repórter: “Companheiro, os homens passam e as instituições ficam”, e acrescento, mas deixam legados. Os legados de Phelippe Daou, como o maior e mais sólido sistema de comunicações da Amazônia, estão configurados na perspicácia, na determinação, no exemplo de lealdade ao Amazonas, a Amazônia e a ao Brasil e são inquestionáveis. A Amazônia perdeu um dos seus maiores e sempre frequentes defensores, de forma apartidária, mas como empresário e jornalista. Como grande ser humano e filantrópico, como foram seus sócios.

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