“Não suporto viver sozinha. Não vejo sentido nenhum na minha vida “


“Estou casada há oito anos e tenho três filhos. Há algum tempo nosso casamento não vai bem; discutimos por qualquer motivo. De qualquer forma, nunca pensei que meu marido seria capaz de propor a separação. Ele já se mudou e não estou suportando viver sozinha. Meus filhos são adolescentes e têm suas próprias atividades; quase não param em casa. Não tenho ânimo pra nada e não vejo sentido nenhum na minha vida sem ele.”

“Todas as vezes em que me separo, sofro muitíssimo como se tivessem me arrancado um pedaço. Mas o que mais tenho tentado na vida é ser inteira e sozinha. Ficar em pé nas minhas próprias pernas, para que o outro não precise me dar nada, a não ser seu carinho, sua vontade de estar comigo, seu bom humor. Se ele for embora, vou sofrer, mas não vou morrer”, me disse, há alguns anos, a grande atriz Marília Pêra.

Mas nem sempre é isso o que acontece. A história da internauta é igual à de muitas pessoas que, ao encontrar um parceiro, o transformam em única fonte de interesse.

Quando fracassa esse projeto amoroso, a pessoa perde o referencial na vida e sua autoestima fica abalada. A questão é que no Ocidente somos incentivados, desde muito cedo, a acreditar só ser possível encontrar a realização afetiva através da relação amorosa fixa e estável com uma única pessoa. A propaganda a favor é tão poderosa que a busca da “outra metade” se torna incessante e muitas vezes desesperada.

Se surge um parceiro disposto a alimentar esse sonho, pronto: além de se inventar uma pessoa, atribuindo a ela características que geralmente não possui, se abdica facilmente de coisas importantes, imaginando que, agora, nada mais vai faltar. E o mais grave: com o tempo passa a ser fundamental continuar tendo alguém ao lado, pagando-se qualquer preço, mesmo quando predominam as frustrações. Não ter um par significaria não estar inteiro, ser incompleto, ou seja, totalmente desamparado.

Acredito que a condição essencial para ficar bem sozinho seja o exercício da autonomia pessoal. Isso significa, além de alcançar nova visão do amor e do sexo, se libertar da dependência amorosa exclusiva e “salvadora” de alguém. O caminho fica livre para um relacionamento mais profundo com os amigos, com crescimento da importância dos laços afetivos.

É com o desenvolvimento individual que se processa a mudança interna necessária para a percepção das próprias singularidades e do prazer de estar só. E assim fica para trás a ideia básica de fusão do amor romântico, que transforma os dois numa só pessoa. E quando se perde o medo de ser sozinho, se percebe que não ter um par amoroso não significa necessariamente solidão.

Fonte: Regina Navarro Lins

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