Mônica Odebrecht advoga para marido contra acusações do irmão na Lava Jato


A Lava Jato colocou Mônica Bahia Odebrecht no centro de uma disputa jurídica e familiar. Filha de Emílio Odebrecht, a advogada defende o marido, Maurício Ferro, ex-vice-presidente jurídico da Odebrecht, em processos da operação.

O próprio irmão de Mônica, Marcelo Odebrecht, ex-presidente do grupo, acusa Ferro de participação em crimes delatados. Ferro alega inocência.

O executivo já foi denunciado pelo MPF-PR (Ministério Público Federal do Paraná) em agosto do ano passado por supostamente participar de um esquema de pagamento de propinas em troca da edição de MPs (Medidas Provisórias) favoráveis ao grupo Odebrecht.

Em agosto deste ano, ele também foi alvo de outras duas fases da Lava Jato. Chegou a passar duas semanas preso. Solto, ainda é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e de tentativa de obstrução de investigação.

Mônica Odebrecht advoga para Ferro, seu marido. Ela trabalha com pelo menos outros cinco colegas com o objetivo de mostrar que seu cônjuge não cometeu crimes nem participou de delitos que a própria Odebrecht e seus executivos, entre eles Marcelo Odebrecht, admitiram ter cometido em acordos de leniência e delação premiada.

Marcelo, porém, tem contrariado o entendimento da irmã a respeito de Ferro em depoimentos. O ex-presidente da Odebrecht já afirmou a investigadores que o cunhado Ferro participou, sim, de ilícitos. Já entregou, inclusive, emails trocados com o próprio Ferro para reforçar seus relatos.

Mal-estar familiar

A divergência entre os irmãos e cunhado no campo jurídico já estremeceu suas relações familiares. Segundo fontes ouvidas pelo UOL, Mônica e Marcelo estão rompidos por conta da ofensiva de Marcelo contra o cunhado.

O rompimento teria feito, inclusive, que Mônica não visitasse o irmão enquanto ele esteve em prisão domiciliar.

Desde quinta-feira (12), Marcelo já não está preso em casa. Conseguiu o direito a uma progressão do seu de regime prisão justamente porque tem apresentado provas adicionais dos crimes que relatou à Justiça.

Procurada, a Odebrecht não comentou as declarações de Marcelo Odebrecht a respeito de Maurício Ferro. Também não comentou as investigações e o processo em curso contra seu ex-vice-presidente jurídico.

A companhia informou ainda que o trabalho de Mônica Odebrecht em defesa de Ferro e contra os depoimentos de Marcelo Odebrecht é uma questão de “foro íntimo, não cabendo à Odebrecht qualquer resposta”.

Acionista e assessora jurídica Mônica Odebrecht é acionista do grupo empresarial que leva o nome de sua família. Também já trabalhou como advogada para a companhia, mas nunca exerceu cargo de chefia nem foi vista como uma liderança, diferentemente do irmão Marcelo.

Na Odebrecht, Mônica já atuou em causas trabalhistas e societárias. Era escalada para acompanhar processos relacionados a fusões e aquisições.

Apesar de não ser uma criminalista, também advogou em defesa de Marcelo e do pai Emílio nos primeiros processos criminais abertos contra eles na Lava Jato.

Mônica também participava de reuniões da cúpula da empresa em que eram tomadas importantes decisões. Uma delas, a de delatar.

Ela acompanhou o processo de colaboração premiada da Odebrecht com a Justiça, acertado em dezembro de 2016. Soube quem seriam os executivos delatores, os crimes confessados e o conteúdo dos depoimentos prestados.

Soube, por exemplo, dos fatos que Marcelo Odebrecht relatou a investigadores e à Justiça. Pessoalmente, empenhou-se na orientação jurídica do irmão, pelo qual tinha grande admiração. Chegou a passar a noite em reunião discutindo sua defesa.

Durante as negociações para a delação da Odebrecht, Mônica soube também que seu marido, Ferro, não confessaria participação em crimes. O fato contrariou Marcelo, que estava preso quando o acordo de delação premiada foi fechado.

Desde que a empreiteira resolveu colaborar com a Justiça em delações, Marcelo Odebrecht afastou-se da família. Segundo o UOL apurou, ele sempre se sentiu como uma espécie de bode expiatório da companhia. Passou dois anos e meio na prisão e viu outros delatores saírem praticamente impunes.

Depois que deixou a cadeia e foi para casa, Marcelo começou a pesquisar provas que poderiam incriminar Ferro em seus arquivos pessoais.

O executivo Maurício Ferro, ex-diretor jurídico da Odebrecht, é levado pela Polícia Federal durante a 63ª fase da Operação Lava Jato - Marcelo Gonçalves

O executivo Maurício Ferro, ex-diretor jurídico da Odebrecht, é levado pela Polícia Federal durante a 63ª fase da Operação Lava Jato – Marcelo Gonçalves

Conhecimento a favor do marido

Maurício Ferro foi executivo da Odebrecht até agosto de 2018. Deixou a empresa depois de ser denunciado pelo MPF.

Já Mônica ainda é assessora do diretor-presidente da Odebrecht. Contudo, está licenciada do cargo há, pelo menos, três meses.

Longe da empresa, ela atua em defesa do marido sem qualquer vínculo com a Odebrecht. Usa, porém, o conhecimento obtido na empresa em defesa de Ferro.

“Ela [Mônica] sabe do histórico da negociação [da delação], o histórico das colaborações, os anexos feitos pelos executivos”, afirmou o advogado Gustavo Badaró, que trabalha na defesa de Ferro. “Ela tem um papel importante.”

Segundo Badaró, Marcelo Odebrecht faz acusações contra Ferro motivado por uma tentativa de retaliação pessoal contra o cunhado. O advogado não comenta os motivos dessa retaliação. Diz só que Marcelo “fica inventando coisas para atacar Maurício”.

De acordo com Badaró, Mônica, que conhece bem o conteúdo da delação dos executivos da Odebrecht, consegue contrariar versões do irmão usando depoimentos de outros delatores. “O Marcelo vai e fala que Ferro participou do pagamento de propinas para edição de MPs. A Mônica lembra de um depoimento de um outro executivo que mostra que isso não era verdade”, exemplificou o advogado.

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