Hospitais criam rituais para marcar o fim de fases do tratamento do câncer


Damião Dias, 36, toca sino no Icesp após última sessão de radioterapia

Damião da Silva Dias está pintado para a batalha. Enquanto movimenta o braço esquerdo para frente e para trás, mostra nele dois tipos de marcas: as provisórias, feitas a tinta, para delimitar onde a radioterapia deveria ser aplicada, e as definitivas, cicatrizes da retirada de um tumor do tamanho de uma bola de tênis. O balanço do braço vem acompanhado por um som metálico e um grito.

“Vitória na guerra!”, bradava o cozinheiro de 36 anos no subsolo do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), onde enfrentou um périplo de dois anos contra a doença. Os badalos do sino ocorreram na manhã de 6 de janeiro, última sessão planejada de radioterapia de Dias.

O sino foi instalado há cerca de um ano -doação de um benfeitor que venceu a doença- e tocá-lo foi ideia de um médico que encontrou inspiração em um hospital canadense, onde um ex-paciente marinheiro levara o conceito do barco para a clínica.

Não costuma haver um dia em que o sino passe em silêncio. “É bom ver quem termina. A gente pensa que um dia vai terminar também”, diz Dias, que ia sozinho ao tratamento porque “as pessoas da família às vezes ficam mais preocupadas que o doente”.

Qualquer um que cumpra essa parcela do tratamento, com radioterapia, é convidado a tocar o sino, mesmo que a cura ainda esteja distante ou que não seja nem aventada. “Como vamos negar isso ao paciente que venceu essa etapa? Por hoje, ele venceu”, diz a psicóloga Juliana Ono Tonaki, do Icesp.

Mais da metade dos pacientes aceita participar da cerimônia, para a qual é permitido levar quantos parentes e amigos se desejar. Quem está à espera do tratamento também costuma participar: bate palmas, abraça, chora.

Dias atrás, uma octagenária se levantou da cadeira de rodas para tocar o sino, auxiliada pela neta que a acompanhava nas sessões de tratamento. “O hospital inteiro parou para ver”, diz Tonaki.

FESTA DA PEGA

Faz pelo menos um ano que Maciel Barbosa Cosme, 15, não mistura Cebolitos com Fanta Uva. O início do jejum das suas porcarias prediletas coincidiu com a descoberta de leucemia.

Na segunda-feira (11), ele estava prestes a quebrá-lo na sua festa da pega (lê-se pêga), que celebra a aceitação da medula transplantada pelo corpo com a oferta dos quitutes prediletos do pequeno paciente. Milkshake, cupcakes e bolos costumam ser os mais pedidos da celebração, instituída há 11 meses.

“Pode demorar 20 dias, um mês. É quando conseguimos aferir que o paciente começou a reagir”, diz a oncologista Angela Mandelli, do Itaci (Instituto de Tratamento do Câncer Infantil), em São Paulo. No caso de Damião, demorou mais de um mês entre o excerto do novo tecido e a volta do apetite e a diminuição das feridas na boca.

Maciel Cosme, 15, recebe festa após medula começar a produzir células saudáveis

Maciel Cosme, 15, recebe festa após medula começar a produzir células saudáveis

Depois de horas sedado, Maciel acorda e, minutos depois, um pequeno batalhão de mulheres entra no quarto fazendo fuzuê. As oncologistas, enfermeiras e a terapeuta ocupacional aparecem ao som do funk tocado pelo alto-falante do celular de uma delas. Carregam na mão um cartaz, com a palavra “pegou!” escrita várias vezes, votos de felicidade dos funcionários dos três turnos e uma figura antropomórfica. O mascote é uma hemácia, redonda e achatada, com bracinhos e perninhas.

“Era pra ser um neutrófilo [um dos glóbulos brancos que tem seu número alterado pela doença], mas ficou mais bonito com a hemácia adaptada”, diz a terapeuta ocupacional Renata Sloboda.

Como as internações no hospital chegam a seis meses, paciente e equipe se conhecem bem. Mas Damião espera estar sozinho para dar cabo do lanche que encomendou, semanas antes. “Assim que vocês saírem, esse pacote vai esvaziar rapidinho”, diz sua mãe.

Há rituais também para casos em que os esforços não conseguem a cura da doença. Uma vez por ano, o núcleo de luto do Hospital do Câncer de Barretos reúne as famílias dos pacientes que não sobreviveram e os funcionários do hospital em uma chácara. Conversam e escrevem mensagens para aqueles que se foram em balões cheios de hélio, que são então liberados para subir ao céu.

“Choramos muito”, diz a oncologista Erica Boldrini, “mas rimos um tanto também, com as lembranças de tudo que passamos juntos.”

 

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