Grileiro pediu ajuda da PF para expulsar invasores de terras da União que ele invadiu antes


O grileiro Dirceu Kruger, de Boca do Acre (AM), em seu depoimento à PF

Multado pelo Ibama em R$ 44 milhões e denunciado pelo MPF por lavagem de dinheiro, fazendeiro procurou Polícia Federal para se queixar de invasão à area de 5 mil hectares no Sul do Amazonas.

Denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) em junho passado por lavagem de dinheiro oriundo de desmatamento ilegal, o grileiro Dirceu Kruger já estava na mira da Polícia Federal há anos, por um motivo pitoresco: ele procurou os agentes da PF para se livrar de invasores da terra que ele mesmo tinha invadido.

Na tarde do dia 27 de novembro de 2017, Kruger sentou-se diante de policiais federais na Superintendência da PF em Rio Branco (AC), com a cara e a voz de quem tinha um problema grande a resolver.

Homens estavam invadindo e loteando sua “propriedade” em Boca do Acre, no Sul do Amazonas.

Onde fica a região

MAPAO que os policiais federais não sabiam é que Kruger, que já recebeu multas ambientais no valor de R$ 44 milhões (dados do Ibama), acabaria confessando um crime ambiental de dimensões gigantescas.

Sua tal “propriedade”, na realidade, era uma área de cinco mil hectares da União que ele havia “grilado” anos antes.

O depoimento de Kruger, obtido pelo GLOBO, faz parte de uma das ações penais movidas pelo Ministério Público Federal (MPF) contra ele. O processo não corre em sigilo.

Em junho deste ano, ele e sua mulher foram denunciados por lavagem de dinheiro pela Operação Ojuara, do MPF, que desmantelou um esquema milionário de grilagem de terras no interior da Amazônia.

Em seu depoimento à PF em 2017, Dirceu descreveu em detalhes como invadiu uma área equivalente a cinco mil campos de futebol de floresta intocada.

— Essas terras… eu descobri que ela estava lá solta, sem dono. Terra da União. E eu fui lá, abri estrada e me apossei dela. Não comprei de ninguém. Se o cara falar que eu comprei, não (é verdade). Eu estava lá, eu fui olhar, era terra da União e eu fiz uma posse em cima dela. E comecei a mexer nela — conta Kruger.

No vídeo, ele não parece incomodado em revelar que havia invadido terras federais. O problema, de acordo com seu relato, era que, apesar de ele ter feito “a posse” sobre área, um grupo de grileiros tinha invadido a mesma terra, dividido-a em lotes e estava comercializando as glebas com base em documentos falsificados.

Falta de ética entre grileiros

Em determinado momento, ele mostra indignação por não ter sido consultado pelos grileiros que invadiram a área que ele havia grilado antes.

Segundo quem conhece como funcionam as quadrilhas de invasão de terras Amazônia, isso teria violado a “ética” dos grileiros.

— Não sei que tipo de documento que eles têm pra vender isso aí […]. Faz um recibo de compra e venda, contrato… mas, pra você fazer um contrato de uma terra, tu tem que ver com o vizinho pra saber se ele está ciente daquilo ali. Do que é e do que não é — relata.

Os policiais federais perguntam a Kruger se o grupo que havia invadido as suas terras estava desmatando a área.

— Não. O desmatamento de lá é meu. Só que eles estão abrindo estrada pra fazer casa, cercar dentro da propriedade. Já dentro, com desmatamento meu.

Em dado momento, o grileiro diz à PF que, se eles fossem ao local fazer uma fiscalização, iriam encontrar os invasores.

O delegado Jacob Guilherme de Melo, um dos que tomou o depoimento, disse que, apesar da confissão, Kruger não poderia ter sido preso imediatamente.

— Ninguém pode ser preso apenas com confissão. São necessários outros elementos de prova — diz Melo.

Ele afirma que, quando o grileiro começou a falar,  “deu corda” para que Kruger desse mais detalhes sobre como funcionava o esquema de invasão de terras públicas e desmatamento.

— O interrogatório ideal é aquele em que deixamos o suspeito falar à vontade, especialmente quando está narrando detalhes relevantes do crime — afirmou o delegado.

“Universidade do desmate ilegal”

Para a Polícia Federal, Kruger é uma peça-chave do esquema desmantelado pela Operação Ojuara.

Ao analisarem os dados de seu telefone celular, os investigadores disseram que ele era uma verdadeira “universidade do desmate ilegal”.

Segundo as investigações, ele atuava tanto na invasão de terras para si mesmo quanto como um profissional do desmatamento.

Para a PF, há indícios de que ele seria contratado por fazendeiros que grilavam terras públicas para fazer o desmate dessas áreas.

Na época do depoimento, Kruger já havia levado uma multa de R$ 700 mil do Ibama por desmatamento na terra invadida. Ele disse que estava usando essa multa como parte de um processo para “regularizar” a terra em seu nome.

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Na sua lógica, se ele havia sido multado pelo Ibama era porque a terra era sua, ainda que ela tivesse sido invadida.

Em um ponto, um dos policias pergunta se aquela era a única multa que ele havia recebido e como arcaria com os custos tão altos. O policial pergunta se era possível “derrubar” as multas administrativamente.

— Essa multa de 700 mil, tem dois meses. As outras são nesse valor? — indaga o policial.

Kruger começa a dar risadas.

— Dois milhão (sic), três… por isso que te falo… eu ainda vou tomar café com vocês — diz, tentando segurar o riso.

Em maio deste ano, quase um ano e meio depois do depoimento, policiais federais bateram em sua porta e o levaram preso.

Até o fechamento desta matéria, a reportagem não havia conseguido localizar os advogados de Dirceu Kruger.

Fonte: O GLOBO

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