FÉ E CRENDICE NA AMAZÔNIA: A HISTÓRIA DO SANTO TEIMOSO DE HUMAITÁ


IMAGENS: Célio Leandro e Lourismar Barroso – Imagens de São João do Alto Crato

IMAGENS: Célio Leandro e Lourismar Barroso – Imagens de São João do Alto Crato

Fundado em 23 de dezembro de 1755 com uma área de 100 mil hectares, a região do Alto Crato no Amazonas, tornou-se o primeiro bairro da cidade de Humaitá, sudoeste do estado, tem suas histórias e lendas que chegam até os dias de hoje alimentados pelos espíritos das crendices de um povo que buscam manter preso no passado a tradição da fé, a perseverança na cultura e da crendice religiosidade transpassada de geração em geração.

A região do Alto Crato é vista na história do Amazonas como um entreposto comercial entre os rios Madeira e Amazonas, sua confluência estreita, permite a visão dos barcos que se aproximam de ambos os lados, tanto subindo como descendo o rio, permitindo a passagem de alguns batelões por vez, tendo assim a certeza do uso e o controle daqueles rios. “Em são João do Alto Crato, achava-se estabelecido o registro do ouro para as canoas que desciam de Mato Grosso. Era um destacamento como outros, serviam para fazer chegar às ordens reais até Mato Grosso” (Vitor Hugo, 1979 p. 133).

Vitor Hugo (1979, p. 202) ressalta que “Humaitá era um entreposto obrigatório para o abastecimento e quiçá no caminho para Vila Bella da Santíssima Trindade em Mato Grosso”. Registra-se ainda que a região do Alto Crato teria tido uma cadeia que para lá mandava os degredados da justiça, a mesma ainda é lembrada por antigos moradores que ouviram falar tão mal da tal prisão que ao seu redor havia um longo e profundo buraco e que de vez enquanto jogavam aqueles que fossem mais exaltados.

Conta um antigo morador que reside até hoje no local, que seu pai um dia fazendo a limpeza pelas proximidades do terreno se deparou certa vez com uma imagem de santo por nome de São João Batista, abandonada entre as folhagens dos arbustos verdes, não sabendo de certo quem havia deixado ou esquecido por ali, de imediato resolveu limpá-la e dá abrigo à imagem em sua humilde residência, que logo passou a trabalhar na construção de uma pequena capela para abrigar definitivamente a tal imagem, que ninguém saberia explicar como ela veio parar ali.

Tão logo a capela ficara pronta, resolveu seu pai pedir para um padre celebrar uma missa para inaugurá-la, agora aquela que seria a verdadeira casa do santo. Os anos se passaram e a Diocese de Humaitá sempre passava por reformas e para seu interior precisaria de imagens de santo para ornamentar o ambiente, foi quando um padre recém-chegado na cidade ficou sabendo que em certa casa da região do Alto Crato havia uma família que possuía uma pequena capela e dentro da mesma havia imagem de santo.

Chegando ao local, o novo padre se deparou com a imagem de São João Batista que logo retirou-a do pequeno e singelo altar e a colocou numa sacola trazendo consigo para a diocese. Tão logo foi colocada agora em sua nova morada (Diocese), a imagem permaneceria por ali alguns dias, até que surpreendentemente a referida imagem sumiu do novo local e reapareceu no Alto Crato, no chão, ao lado da capela da qual foi retirada e o mais curioso é que suas vestes estavam cheias de carrapichos por toda parte.

Quando o padre ficou sabendo que a imagem de São João Batista teria retornada, tratou de ir ao local buscá-la, não dando importância como à mesma teria chegada ali, o fato é que esse episódio se repetiu por três vezes, indo e voltando sem a mínima explicação, sempre com as vestes cheias de carrapichos, até que o acontecido chamou atenção do bispo da diocese que tratou de comunicar o fato ao vaticano e narrou toda história bizarra. De imediato, o Papa mandou buscar a imagem com a alegação de que serviria para estudos, tentar compreender o tal fenômeno e por lá a imagem nunca mais retornou.

Aos donos da imagem e do terreno onde fora achado o Santo restou apenas uma réplica que foi enviado pelo vaticano com intuito de amenizar o sofrimento daquela família que via no santo a verdadeira crença e vocação. Em memória do santo que um dia fez parte da história daquele local, a família passou a batizar todos seus 6 filhos com nomes de santos, sendo 5 homens e 1 mulher.

Do local onde foi erguida a capela e que servia ao santo São João Batista, foi demolida por uma empresa que se instalara no local, só restando hoje dois pés de árvores do tipo laranjeira, que com seus frutos suculentos e saborosos, passaram 50 anos sem nunca deixar de gerar, o espaço do pequeno templo fica hoje somente nas lembranças daqueles que viveram e tiveram contato com a história.

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