Entenda os recados de Bolsonaro no discurso da ONU


Presidente reiterou posições conhecidas sobre Amazônia, direitos humanos, ideologia e relações internacionais

O presidente Jair Bolsonaro abriu nesta terça-feira os debates gerais na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, sob pressão para tentar reverter a imagem negativa de seu governo no exterior. O discurso era cercado de expectativas, após o presidente brasileiro protagonizar polêmicas com outros líderes mundiais e a má repercussão dos incêndios na Amazônia. Veja quais foram os principais recados enviados por Bolsonaro em seu discurso.

Ideológicos são os outros

Ao mesmo tempo em que atacava “sistemas ideológicos de pensamento” que, segundo ele, não “buscavam a verdade”, mas o “poder absoluto”, Bolsonaro fez um discurso de alta carga ideológica, na qual atribuiu todos os males do Brasil e do mundo ao socialismo e à esquerda, sem fazer distinção entre a social-democracia e as ditaduras de partido único comunista, três décadas depois da queda do Muro de Berlim. Já na abertura  — como havia feito em seu discurso de posse e em outros pronunciamentos, incluindo na Casa Branca em março deste ano —, ele disse que assumiu um país “à beira do socialismo”. Como suposta evidência disso, citou os médicos cubanos que trabalhavam no programa Mais Médicos.

Sem chegar a usar a expressão “marxismo cultural”  — uma das favoritas dos seguidores do guru da direita Olavo de Carvalho, entre eles o chanceler Ernesto Araújo, seu filho Eduardo Bolsonaro e o assessor internacional do Planalto Filipe Martins, que o ajudaram a redigir o discurso  —, o presidente disse que a “ideologia se instalou” na cultura, na educação e na mídia, dominando meios de comunicação, universidade e escolas, destruindo a família, a “inocência das crianças” e a fé em Deus. Atacou o “politicamente correto” e definiu a identidade sexual como puramente “biológica”.

Por fim, criticou o que direita chama de “globalismo”, termo pejorativo para as instituições e tratados globais, afirmando que os nacionalismos e as soberanias não podem ser “apagadas” em nome de um “interesse global abstrato”. Pouco antes do discurso de Bolsonaro, ao abrir os debates da Assembleia Geral, o secretário-geral da ONU, António Guterres, que foi primeiro-ministro de Portugal pelo Partido Socialista, havia destacado que as crises internacionais devem ser resolvidas multilateralmente, mas sem interferências indevidas nas questões internas das nações.

Defesa da ditadura

De modo não explícito, ao mesmo tempo em que atacava a ditadura do Partido Comunista em Cuba e o regime venezuelano de Nicolás Maduro, Bolsonaro reiterou a defesa das ditaduras militares instaladas no Brasil e na maioria dos países da América Latina nos anos 1960. Disse que na época houve uma “guerra” contra supostos agentes cubanos na qual “civis e militares brasileiros” foram mortos, ignorando que o governo deposto em 1964 havia sido eleito e enfrentava tensões políticas internas decorrentes de demandas populares pela ampliação da democracia e por mais direitos sociais.

Por fim, não deixou de mencionar o Foro de São Paulo, uma obsessão de círculos da direita que costumam superestimar sua influência, e que é formado por mais de cem partidos políticos de várias correntes da esquerda e centro-esquerda.

Sem reconhecer aumento das queimadas

Ao falar da Amazônia, Bolsonaro não reconheceu o aumento das queimadas registrado  pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), atribuindo essas ocorrências ao “clima seco e aos ventos” desta época do ano, “que favorecem queimadas espontâneas e criminosas”. Disse que os índios também promovem queimadas, e que o Brasil é alvo de “ataques sensacionalistas” de “grande parte da mídia internacional”. “É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade”, afirmou.

Sobre os povos indígenas, reiterou que não haverá mais demarcações de terras em seu governo. Citou as reservas ianomâmi e Raposa Terra do Sol, dizendo que a cobiça pelos depósitos de minerais nesses locais motiva as críticas ao seu governo, que, no entanto, já manifestou a intenção de abrir essas áreas à exploração. Bolsonaro também voltou a atacar organizações não governamentais que, segundo ele, “teimam em tratar nossos índios como verdadeiros homens das cavernas”.

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