CONVERSA COM ARTISTAS DO CIRQUE DU SOLEIL, NASCIDOS OU CRIADOS NO BRASIL


(foto: CIRQUE DU SOLEIL/DIVULGAÇÃO)

Conheça a história de Aruna Bataa, Neiva Nascimento e Emerson Neves, protagonistas de Ovo, em cartaz na capital mineira

Estima-se que o Cirque du Soleil invista em torno de US$ 100 mil (R$ 390 mil) em cada novo artista. Ou seja: interessa à companhia canadense que os recém-ingressados integrantes permaneçam por um bom tempo na trupe. Os brasileiros Neiva Nascimento e Emerson Neves já têm uma longa história com o Cirque du Soleil.

Na equipe de Ovo há outros brasileiros. Aruna Bataa não é da gema, vamos dizer assim. Nasceu bem longe, na Mongólia. Mas foi criada no Brasil, país onde chegou com a família ainda na adolescência. Para ela, começar a temporada brasileira por Belo Horizonte tem muito significado – foi também aqui que Aruna estreou no Cirque, no espetáculo Quidam, há 10 anos. A seguir, um pouco da história desses três artistas, dentro e fora do palco.

Nascida na Mongólia e criada no Brasil, a contorcionista Aruna Bataa interpreta a aranha-branca em Ovo (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )

Nascida na Mongólia e criada no Brasil, a contorcionista Aruna Bataa interpreta a aranha-branca em Ovo (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )

“A carreira depende de como você mantém o corpo”
Um dos países que mais exportam contorcionistas mundo afora é a Mongólia. Ironicamente, Aruna Bataa, nascida no país asiático, foi aprender uma das mais difíceis e tradicionais artes circenses no Brasil. Uma das quatro aranhas do espetáculo Ovo, montagem criada por Deborah Colker que explora o universo dos insetos, Aruna, a aranha-branca, tem seu número solo no início do segundo ato do espetáculo.
Com 30 anos, ela está há 10 na trupe canadense e há cinco em Ovo. Espera se aposentar daqui a cinco anos. “A carreira depende de como você mantém o corpo. E o contorcionismo exige muito esforço corporal. Sinto a diferença de 10 anos para cá. Sou mais forte, tenho mais consciência do corpo, mas a flexibilidade deteriora”, afirma.
Aruna chegou ao Cirque no momento em que pensava em pendurar as chuteiras (no caso dela, as posições que qualquer mortal julga inimagináveis). “No Brasil, a carreira é limitada, já que o circo não é tão valorizado quanto lá fora. Resolvi mudar de carreira, voltar a estudar”, comenta ela, que vivia com a família em Santa Catarina.
Por insistência dos amigos, mandou um vídeo para a companhia. Oito meses mais tarde, foi convidada para atuar em Quidam, em substituição a uma atleta machucada. Fez um contrato temporário e,  assim que ele terminou, esperou mais alguns meses, até chegar ao elenco de Saltimbanco. Terminada essa etapa, voltou para o Brasil, até ser chamada para o elenco de Ovo.
Entre uma temporada e outra, entrou para a faculdade de Direito. Estudou até quando deu. “Eram cinco horas de aulas muito chatas. Vi que não era para mim. E, desde que passei a viajar para fora, vi que podia continuar com a carreira circense.” Abandonada a faculdade, hoje ela se considera em casa na Mongólia, para onde seus pais voltaram há sete anos.’

A carioca Neiva Nascimento, intérprete de Lady Bug, é de família circense e enviou um vídeo seu para a trupe canadense (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )

A carioca Neiva Nascimento, intérprete de Lady Bug, é de família circense e enviou um vídeo seu para a trupe canadense (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )

“É tão grandioso que às vezes não acredito”

Não desistir é o lema de Neiva Nascimento, carioca de 43 anos que interpreta Lady Bug, a joaninha por quem o ser estranho de Ovo se apaixona. Da primeira audição até ser chamada para viver uma das protagonistas do espetáculo, foram 10 anos. E pelo menos três audições.
“Quando mandei o primeiro vídeo (para o Cirque du Soleil), uma amiga me falou que eles gostavam de coisas diferentes. Resolvi inventar”, relembra. Neiva, criada no circo, montou um número em que unia o trapézio ao jongo (dança afrobrasileira executada ao som de tambores). Detalhe: estava de saia rodada, comprida, e com ela foi para o trapézio.
“Sempre falo que o que os brasileiros têm é versatilidade e criatividade. Quando me perguntam como entrar no Cirque, digo para procurar algo que chame a atenção.” Nascida no Espírito Santo e criada no Rio de Janeiro, Neiva é de família circense.
“Estreei aos 7 anos no picadeiro. E, acredite, comecei fazendo contorção”, conta ela. Filha de um palhaço, Neiva sempre se interessou em interpretar um. “Com meu pai, eu trabalhava como palhaça, mas nunca consegui atuar com ele, pois começava a rir. Meu pai era um palhaço muito feio, o que era bom, pois todo mundo ria.” A mãe dela se aposentou, mas o pai continua na ativa – atualmente é professor de pirofagia e equilibrismo na Escola Nacional de Circo, no Rio.
Sempre intercalando uma atividade e outra no circo, Neiva teve que abraçar o mundo dos clowns aos 28 anos. O excesso de lesões a tirou das atividades acrobáticas. Hoje, totalmente confortável no papel da joaninha, ela ainda se belisca de vez em quando. “Para ingressar no Cirque é difícil. São muitos talentos, muitas disputas e diferentes habilidades. É tudo tão grandioso que às vezes paro e não acredito no que está acontecendo.”

Ex-atleta de salto ornamental, Emerson Neves atuou em Saltimbanco durante seis anos e hoje é técnico do Cirque du Soleil (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Ex-atleta de salto ornamental, Emerson Neves atuou em Saltimbanco durante seis anos e hoje é técnico do Cirque du Soleil (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

“Aprendi tudo, mas foi duro, meu corpo sofreu” 
Emerson Neves, de 46 anos, passou boa parte de sua vida em uma piscina. Na verdade, meio dentro e meio fora d’água, já que era atleta de salto ornamental. Entrou para o Cirque du Soleil já velho para os padrões da atividade – tinha passado dos 30. E teve que aprender tudo o que os colegas sabiam desde a juventude.
“Quando fui para o Cirque, me chamaram para fazer um treinamento que faziam para um banco de artistas. Eu ia para o O (em Las Vegas), que era o espetáculo de água. Mas, assim que terminei minha formação, não havia vaga disponível. Tive que ir para o Saltimbanco. Aprendi tudo, mas foi duro, meu corpo sofreu”, diz ele.
Emerson fez vários números durante seis anos no espetáculo. Quando, no final de 2012, Saltimbanco encerrou sua trajetória, ele viu que tinha que operar quadril e joelho. A recuperação leva um ano. Retornou para o Cirque em 2016, aí como técnico.
É o responsável por toda a parte acrobática do show, que tem 10 números. Emerson tem que analisar quem precisa treinar quais números, quem está indo bem (ou não). “Os artistas nos atos (conjuntos) revezam, pois há coisas mais difíceis e outras mais fáceis.”
Há, por exemplo, o chamado royal version, que é a versão mais difícil de um ato. “Coisas que os artistas só fazem às vezes, geralmente em premières ou em uma cidade que está com a casa cheia.” Mas tudo vai depender de como o artista está no treino. Na temporada brasileira de Ovo, há alguns artistas/atletas novos no grupo. Assun, Emerson tem que promover a integração dos novos com os profissionais que já estão no elenco há mais tempo.
Ele conta que, além dos números oficiais, há ainda um de back up (com um bambolê). O número é meio coringa, pode entrar em diferentes momentos do show – e ele é acionado sempre que há um problema. Uma sessão de Ovo nunca é igual a outra. “A gente tenta manter o show o máximo possível perto da maneira que a criadora, Deborah Colker, pensou. Mas às vezes não dá, os artistas mudam, então adaptamos com o que temos.”
Vivendo fora do Brasil há tantos anos, Emerson não tem mais residência no país. Sua casa é onde o marido, australiano, está. No caso, a cidade de Atlanta, nos EUA. Já os três filhos do casal vivem na Austrália. E a mãe e os irmãos de Emerson estão em São Paulo. As visitas ocorrem sempre que possível. A rotina é dura: em média, os integrantes do Cirque trabalham 10 semanas direto e tiram duas de folga.
CIRQUE DU SOLEIL: OVO
Temporada até 17 de março, no Mineirinho, Avenida Antônio Abraão Caram, 1.001, Pampulha. Sessões: de terça a quinta, às 21h; sextas e sábados, às 17h e às 21h; domingo (10), às 16h e às 20; domingo (17), às 14h e às 18h. Ingressos: Premium: R$ 550 e R$ 275 (meia); Setor 1 (amarelo): R$ 440 e R$ 220 (meia); Setor 2 (verde): R$ 320 e R$ 160 (meia); Setor 3 (azul): R$ 260 e R$ 130 (meia). Tapis rouge: R$ 350 (mais o valor do ingresso premium). Setor disponibiliza estacionamento, coquetel, acesso separado, entre outras facilidades. Abertura do local: 1h30 antes do show. Capacidade: 5.918 lugares. Duração: 2 horas (com 20 minutos de intervalo). Classificação: livre. Ingressos à venda no Shopping Cidade e no site www.tudus.com.br.

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