Caso do menino abandonado reflete atitude japonesa quanto a disciplina


O menino japonês Yamato Tanooka, 7, fotografado ao deixar hospital, disse que se sentia bem

Um menino japonês de sete anos que sobreviveu por quase uma semana na floresta depois que seus parentes o deixaram à beira da estrada teve alta do hospital nesta semana, e saiu sorrindo e acenando para uma multidão que celebrava o final feliz da história.

As críticas públicas ao pai do menino, que fez Yamato Tanooka sair do carro por estar se comportando mal, emudeceram, e a polícia não vai propor acusações contra ele. O caso reflete a atitude japonesa quanto a disciplina e abusos na educação de crianças.

As autoridades do Japão encontraram o garoto na sexta-feira (2) após seis dias desde que ele havia sido deixado pelos pais em uma floresta da ilha de Hokkaido, no norte do país.

Os pais de Yamato Tanooka deixaram a criança na beira da estrada de uma reserva florestal, no sábado (28), como punição por seu mau comportamento. Eles disseram à polícia que voltaram dez minutos depois, mas o menino não estava mais no local.

Yamato foi encontrado em uma cabana vazia em uma área de treinamento militar, a cerca de 5 quilômetros de onde foi deixado.

O pai de Yamato pediu desculpas ao filho, e foi perdoado na segunda (6).

“Eu disse ‘o papai fez você passar por momentos muito difíceis, me desculpa'”, disse Takayuki Tanooka, de 44 anos, ao canal TBS. “E, então, meu filho respondeu: ‘Você é um bom pai. Eu perdoo você’.”

Abaixo, algumas possíveis explicações para o caso e a decisão da polícia de não processar os pais do menino:

1 – Deixar uma criança para trás é considerado abuso no Japão?
Abandonar uma criança, ou qualquer pessoa que precise de cuidado, é crime passível de até cinco anos de prisão, no Japão. No entanto, a norma costuma ser aplicada apenas quando alguém abandona uma pessoa sem intenção de recolhê-la novamente a despeito de ter conhecimento de possível risco de morte.

No caso em questão, o pai voltou para apanhar o menino minutos mais tarde, mas ele havia desaparecido.

2 – As atitudes quanto ao que constitui abuso são diferentes no Japão?
R. Aparentemente sim. A embaixada japonesa nos Estados Unidos insta os cidadãos japoneses a serem cautelosos com seus filhos, quando estão em território norte-americano. A embaixada alerta que castigos corporais, atitudes como um pai tomar banho com uma filha pequena ou pais que deixam uma criança esperando fora do supermercado dentro de um carrinho de compras – comportamentos considerados aceitáveis no Japão – podem ser interpretados como abuso contra a criança e expor o responsável a acusações criminais, nos Estados Unidos.

3 – Por que as atitudes são diferentes?
No Japão, os conceitos de direitos da criança e de proteção à criança são relativamente novos. É mais comum que as crianças sejam consideradas propriedade de seus pais, em lugar de indivíduos com direitos próprios. Em um país conformista, os bons pais devem controlar seus filhos.

Os casos que poderiam ser caracterizados como abuso contra a criança são vistos mais como questão de família do que como crime.

4 – As atitudes estão mudando?
O Japão assinou a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, em 1994, e isso resultou em o país adotar uma lei de prevenção do abuso contra a criança, em 2000.

A lei define quatro tipos de abuso contra a criança – físico, emocional, sexual e negligência -, em larga medida tomando por modelo as definições vigentes nos Estados Unidos, mas não define penalidades. Em lugar disso, centros de orientação, governos e dirigentes de escola estão instruídos a intervir em possíveis casos de abuso.

O caso do menino de sete anos dividiu a opinião pública. Embora muita gente tenha criticado o pai por ter ido longe demais, outros simpatizaram com ele dadas as dificuldades de criar filhos, e disseram ter enfrentado punições semelhantes, quando crianças.

5 – Qual é a tendência atual no Japão, no que tange a abusos contra a criança?
Os japoneses vêm denunciando casos de abuso com frequência cada vez maior, e o governo atribuiu o fato a uma crescente conscientização sobre o assunto.

Desde que o Japão começou a recolher dados sobre isso, em 1990, o número de casos, incluindo suspeitas de abuso, reportados aos centros de orientação quanto à criança subiu em mais de 700%, com quase 89 mil registrados em 2014, de acordo com o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem Estar do Japão.

O abuso emocional é o tipo mais comum de caso, com 40%, seguido por abuso físico, negligência e abuso sexual. Os mais vulneráveis a esse tipo de caso são crianças em idade escolar, e os perpetradores mais frequente são suas mães. De 2004 a 2014, 1.009 crianças morreram como vítimas de abuso, de acordo com o ministério.

Fonte:MARY YAMAGUCHI – DA ASSOCIATED PRESS, EM TÓQUIO

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