Como Temer construiu a sua carreira e os passos que deu para afastar Dilma


“Ela não escuta ninguém, nem mesmo o senhor.”

Era domingo, 27 de março. “Ela” era Dilma Rousseff. O “senhor” a quem Michel Temer se referia era o padrinho político da presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Unidos pelas conveniências desde 2010, a petista Dilma e o peemedebista Temer nunca foram próximos, mas àquela altura já não se aturavam.

No diálogo com Lula, o vice lembrou que, em ocasião anterior, eles haviam esboçado uma via de pacificação.

Na convenção nacional de seu partido, em 12 de março, Temer conseguira evitar que a sigla rompesse com o governo, com a condição de que a presidente não nomeasse ninguém do PMDB para seu ministério nos 30 dias seguintes.

Naquele momento, Lula dissera a Temer que ele podia ficar tranquilo. Porém, em 16 de março, uma quarta-feira, o peemedebista foi surpreendido pelo anúncio oficial, na televisão: Lula iria para Casa Civil, e Mauro Lopes (PMDB-MG), para Aviação Civil.

Poucas semanas depois, na base aérea do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o vice-presidente diria a Lula que aquele havia sido o último erro da presidente Dilma em relação a ele e ao PMDB.

Temer costuma dizer a interlocutores que poderia ter sido um “grande aliado” de Dilma, mas ela escolheu transformá-lo em “inimigo”.

Naquela quarta, repassou todas as vezes em que a presidente fez questão de isolá-lo. Lembrou do período em que, diante do pedido de socorro de Dilma, aceitou assumir a articulação política.

“Eu me joguei com toda energia para ajudá-la naquele momento. Passei a dormir tarde, a trabalhar 24 horas por dia por ela. E deu certo. Só que ela me sabotou”, disse o vice, segundo relato de amigos e interlocutores.

Temer foi avisado por um amigo da presidente de que ela havia ficado com ciúmes. Enquanto o gabinete presidencial se esvaziava, o do vice recebia uma romaria de congressistas da base aliada.

Numa articulação comandada pelo então ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante (PT), Dilma passou a desautorizar os acordos que Temer fazia com aliados.

“Ele está achando que virou presidente”, teria dito. O vice decidiu, então, deixar a função. A partir dali a presidente, que já enfrentava dificuldades no Congresso, passou ao pior estágio da convivência com sua base.

PRAGMÁTICO

Quando tomou a decisão de sair candidato a vice na chapa da petista, em 2010, Temer achava que a ainda pouco conhecida Dilma tinha poucas chances de ser eleita.

Com raciocínio pragmático, porém, calculou que ele próprio tinha ainda menos chances de se reeleger deputado federal por São Paulo.

Sua habilidade como articulador é inversamente proporcional ao seu sucesso nas urnas. Desenvolto no bastidor, é péssimo de palanque.

Especialista em direito constitucional, Temer usa frases rebuscadas e palavras pouco comuns; se diz “caceteado” quando está muito irritado. Seu perfil contido, sua postura sempre ereta, suas roupas e cabelos bem alinhados lhe renderam apelidos jocosos, como o cunhado por Antonio Carlos Magalhães: mordomo de filme de terror.

Nascido Michel Miguel Elias Temer Lulia, em 23 de setembro de 1940, numa família de origem libanesa de Tietê (SP), iniciou a carreira política pelas mãos de Franco Montoro, que conheceu quando lecionava na PUC-SP.

Filiou-se ao PMDB em 1981. Até então, sua atividade política se restringira à participação no Centro Acadêmico 11 de Agosto da Faculdade de Direito da USP, antes do golpe de 1964. Na ditadura, fez carreira como advogado e professor universitário.

No âmbito acadêmico, é reconhecido como autor de “Elementos de Direito Constitucional” (Malheiros Editores), best-seller na 24ª edição –mas assina também uma coletânea de poemas, “Anômima Intimidade” (Topbooks, 2013), que, como ele mesmo diria, não lhe rendeu nem críticas, nem elogios.

Em 1983, foi convidado por Montoro, já governador de São Paulo pelo PMDB, para ser procurador-geral do Estado. De procurador-geral, foi alçado à Secretaria de Segurança, em meio a uma das históricas crises entre as polícias civil e militar. Ganhou fama de conciliador, embora o problema ainda se arraste.

Em 1992, no governo de Luiz Antônio Fleury Filho, voltaria ao cargo para debelar a crise que explodiu após o massacre do Carandiru. Ali, consolidou sua fama de moderado. Fez baixar abruptamente o número de mortos pela PM paulista e evitou uma rebelião na corporação.

Estreou como parlamentar entre esses dois momentos. Candidato a deputado em 1986, foi eleito como suplente, assumiu em 1987 e acabou por participar da Assembleia Constituinte que escreveu a Constituição de 1988.

Também no Congresso ganhou fama de bom articulador. Foi eleito em três ocasiões para a presidência da Câmara, duas no governo FHC (1997-2001) e uma na gestão Lula (2009-10).

Sempre operando nos bastidores, ascendeu no PMDB. Desde 2001, é presidente nacional da legenda, cargo no qual se mantém por ter aprendido a administrar as diversas correntes do partido.

No controle do PMDB reside sua principal fonte de poder. Daí ter sempre combatido as tentativas de desalojá-lo da presidência da sigla.

Foi a ofensiva da presidente para diluir sua influência na sigla, fortalecendo seus adversários internos com cargos, que levou a sua reação pública contra a petista.

Dilma nunca confiou plenamente em Temer. Aliados do vice afirmam que ela só o acionava em momentos de crise. “Ele resolvia e depois ninguém ligava para agradecer”, resume um auxiliar.

Quando o vice deixou a articulação, a presidente decidiu apostar na aproximação com outro cacique do PMDB, o alagoano Renan Calheiros, presidente do Senado e antigo desafeto de Temer.

Renan passou a ser visto como aliado de Dilma e antagonista do vice e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

O governo acusa Temer e Cunha de conspiração.”Sou amigo do Michel, mas não é por amizade que se faz um processo desse”, disse Cunha à Folha. “Faria o mesmo fosse quem fosse o sucessor.” Pessoas próximas ao vice dizem, porém, que eles são na verdade aliados de ocasião.

LAVA JATO

Cunha aceitou o pedido de impeachment Dilma em 2 de dezembro de 2015. Acusado de envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras, ele é alvo de um processo no Conselho de Ética da Câmara e tomou a decisão após deputados do PT votarem a favor do processo que pode levar a sua cassação.

Temer, por sua vez, foi citado por delatores na Lava Jato. Delcídio do Amaral, ex-líder do governo, atribuiu a ele a nomeação de João Henriques e Jorge Zelada, diretores condenados por desvios na estatal. O lobista Júlio Camargo também citou Temer, dizendo que o vice e outros peemedebistas eram representados pelo também lobista Fernando Baiano.

O vice nega o apadrinhamento e diz que não conhece nem Camargo, nem Baiano.

Anteriormente, o nome de Temer aparecera em uma planilha de beneficiados por doações de empreiteiras na Operação Castelo de Areia (2009), que acabou anulada pela Justiça -ele sempre negou irregularidades.

Mais antiga é a ligação do nome de Temer ao porto de Santos, o maior do país, que estaria sob sua esfera de influência. O vice foi citado em um processo em 2000 como beneficiário de um esquema de cobrança de propina de empresas com contratos no porto, mas em 2002 a Procuradoria-Geral da República mandou arquivar o caso. Em 2011, houve um revisão do caso, e a PGR entendeu que não havia fatos novos contra ele.

No ano passado, foi revelado que uma emenda de Eduardo Cunha favoreceu um grupo que opera no porto e que foi doador de campanha do vice. Como nos outros casos, Temer negou irregularidades.

Sua ligação com Cunha levou o governo a acusá-lo de querer assumir para acabar com a Lava Jato, o que ele nega enfaticamente.

EMPAREDADO

Com o impeachment instalado, aliados de Dilma passaram a cobrar um gesto de “lealdade” de Temer. O vice sentiu-se, então, “emparedado”. Cinco dias depois de o pedido ser acolhido na Câmara, Temer enviou uma carta a Dilma. Na missiva, que se tornou pública, mostrou-se descontente com o isolamento.

Criticado pelo gesto e questionado sobre sua motivação, o vice respondeu a aliados que gostaria de ter conversado com Dilma, mas decidiu escrever porque ela não o deixava “concluir uma frase”.

Temer demora a digerir equívocos. Repassa as situações, fica quieto e irritadiço. Quando estressado, recorre a massagens num centro de quiropraxia de Brasília.Ouviu de um amigo que, se continuasse recolhido, “perderia tudo” –Renan Calheiros se movimentava para tirá-lo da presidência do PMDB.

O abatimento deu lugar à luta para se manter à frente da sigla, tarefa a que se dedicou com exclusividade. Na convenção de 12 de março, sacramentou sua recondução.

O que veio a seguir sabemos. Desautorizado pela presidente com a nomeação de Mauro Lopes para a Aviação Civil, Temer partiu para o tudo ou nada. Avisou que abriria processo pela expulsão do aliado e iniciou a articulação que levaria à saída do PMDB do governo, no fim de março.

Esse movimento empurrou os principais partidos da oposição, como o PSDB e o DEM, para o apoio formal a Temer.

Questionado sobre a confiança em Temer, Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) –visto como fiador da coalizão em torno do vice– declarou à Folha, por escrito:

“Experiência política ele tem. Base jurídica, também. Terá de governar pensando na história, mais do que nos acordos partidários. O país espera dele que assuma a visão que distingue o político comum do homem de Estado”.

No Palácio do Jaburu, sua residência oficial, Temer passou a receber dezenas de parlamentares todos os dias, de segunda a quinta.

Na sexta, volta para sua casa em São Paulo, onde a mulher, Marcela, vive com Michelzinho, o caçula do vice -ele tem outros quatro filhos.

Com Maria Célia de Toledo, teve três filhas: Luciana, que seguiu seus passos no direito e é secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, nascida em 1969; e as psicólogas Maristela, de 1972, e Clarissa, de 1974. Com uma jornalista, teve Eduardo, 17, nascido em Londres.

Quase 43 anos mais jovem que o vice, Marcela se casou com ele aos 20, numa cerimônia íntima na cidade dela, Paulínia (SP), em 2003. Alta e bonita, foi candidata a miss e ensaiou carreira de modelo. Discreta, não se habituou à vida em Brasília.

Na última segunda, o vice voltou para o Jaburu ainda inseguro sobre suas chances de vencer a batalha. Na terça, sentiu ventos favoráveis. Representantes de poderosos setores da economia foram visitá-lo para avisar que, com Dilma, não dava mais.

A peregrinação empresarial contou com emissários de grandes bancos, que foram seguidos pelo presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e, depois, por dirigentes da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Ambas divulgariam seu apoio ao impeachment.

Um aliado resume a sensação de alívio e expectativa: “Se esses caras forem mesmo aos deputados, nós viramos o jogo”. O resultado foi o conhecido neste domingo (17).

Fonte: Folha

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